[CHAMADA DE TEXTOS] Fabulações e narrativas mais que humanas: em busca de modos de escrita nas artes e na teoria crítica implicados com a vida multiespécie
Pensar criticamente os modos de escrita, de fabulação e de produção discursiva que operamos na arte e na vida, com vistas a trabalhar histórias, epistemologias e dramaturgias implicadas com a vida multiespécie, nos coloca em oposição a uma parte considerada da história do realismo moderno ocidental, comprometido com uma ideia hegemônica de sujeito e de indivíduo humano separado da natureza. Em nome de uma cena colonial-patriarcal centralizada no humano, e reencenada contemporaneamente nas instituições, na política, nas metodologias aplicadas, nos discursos teóricos, na produção artística, na qual o protagonista, um sujeito branco e homem encontra sempre o mesmo objeto – um corpo feminino, queer, imigrante ou de pele preta a quem interpela com violência ética (Butler) – continua-se a reforçar o território espetacular do capitalismo, suas relações sociais e de poder, seus mecanismos de normatização dos corpos e os dualismos da máquina antropológica (Agamben).
Por esses caminhos, este dossiê propõe-se a compartilhar com seus leitores a experiência de uma compostagem fabulatória realizada com doutorandos e mestrandos no Programa de Pós-Graduação das Artes da Cena da UFRJ-ECO, a partir de um curso ministrado pela professora e pesquisadora Martha M. Ribeiro, idealizadora da proposta e organizadora deste Dossiê. Compostagem que os artistaspesquisadores desenvolveram em sala de aula inspirados na fabulação especulativa (Haraway) e na Teoria da Bolsa de Ficção (Le Guin). Um desafio, um gesto especulativo para imaginar composições (narrativas/histórias) não centradas no humano, de crítica ao antropoceno e às ruínas herdadas do colonialismo que sustenta o capitalismo imperial.
Seguimos com o problema, e convidamos pesquisadoras e pesquisadores externos ao composto a participar também deste dossiê com artigos que reflitam sobre:
- Modos de escrita e de fabular não centrados no humano, de histórias que alimentam outros modos de existir e de viver, de habitar o planeta, de fazer parentesco;
- Experiências artísticas e dramaturgias emergentes que operam formas de criar críticas ao aparato conceitual fundamentado no exclusivismo do humano;
- Caminhos críticos e políticos que apostam nos desafios éticos e afetivos comunitários, de sustentação e acolhimento de outras formas de existência;
- O que foi negado ou silenciado no interior da modernidade ocidental, questionando o fechamento unidimensional do real.
Trata-se de evidenciar que os conflitos políticos contemporâneos não dizem respeito apenas a interesses divergentes ou regimes de poder, mas a ontologias em disputa — isto é, a diferentes modos de conceber o que existe, o que conta como realidade e quem ou o que pode participar do mundo comum (De La Cadena). Há urgência em rever criticamente o modo exclusivista como escrevemos histórias da vida social humana apartada da natureza; rever como praticamos, no manejo ficcional, conceitos e epistemologias que reiteradamente fazem circular afecções violentas sobre existências outras (M. Ribeiro). O ponto crítico está em repensar os modos de narrar e de escrever ficção que operamos (Le Guin), buscando nas contranarrativas questionar partilhas de poder-saber, hierarquias e fronteiras.
Convidamos pesquisadoras e pesquisadores comprometidos com um princípio decolonizador do pensamento crítico e da história das artes da cena.
Editoria especial deste número:
Professora Dra. Martha M. Ribeiro, UFF - Email: martharibeiro@id.uff.br.
Cronograma:
O prazo para submissão é 15 de agosto de 2026.
Publicação do número até 31 de dezembro de 2026.
Links úteis:
Sobre a Revista: https://periodicos.univasf.edu.br/index.php/dramaturgiaemfoco/about
Diretrizes para autores: https://periodicos.univasf.edu.br/index.php/dramaturgiaemfoco/about/submissions#authorGuidelines
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Nota: A Dramaturgia em foco recebe, em fluxo contínuo, textos sobre temas não vinculados ao dossiê.